Restaurante Kairū valoriza a gastronomia brasileira em casarão histórico da Prainha

Com fachada de pedra, detalhes em tijolinhos e ar europeu, o casarão de 1928 onde hoje funciona o restaurante Kairū foi o primeiro sobrado construído no coração de Vila Velha. Erguido por Manoel Ferraz Coutinho com a mesma técnica usada no Convento da Penha — barro misturado com óleo de baleia —, o imóvel sobreviveu ao tempo com seus materiais originais e hoje incorpora couro, madeira, metal e tecido em sua arquitetura.

A história da transformação do espaço em restaurante começa com o empresário Joaquim Nolasco. “Minha família era dona do casarão, somos onze irmãos. Tentamos vender o imóvel após a morte da minha mãe, mas não chegamos a um bom acordo. Com o tempo, percebi que restaurá-lo poderia ser o melhor caminho”, conta.

Antes e depois do restaurante Kairū

Inspirado pela Vila San Pietro, espaço paulistano que reúne pequenos negócios e galerias, Joaquim iniciou a restauração tirando as paredes internas do imóvel e criou um perfil no Instagram (@velha.vila.1928) para divulgar o processo. Foi nesse momento que conheceu o chef Igor Trarbach, que propôs transformar o espaço em restaurante.

Igor Trarbach tem passagem por casas renomadas no Brasil e pelo restaurante dinamarquês Noma, cinco vezes eleito o melhor do mundo pelo ranking The World’s 50 Best Restaurants. A sociedade entre os dois deu origem ao Kairū, com uma proposta de gastronomia brasileira contemporânea e sazonal.

“Costumo brincar dizendo que quem já visitou o Espírito Santo e passou pelo Convento da Penha, certamente também passou em frente ao Kairū”, comenta Joaquim Nolasco. “É um lugar historicamente privilegiado”, complementa.

Fachada do casarão atualmente


Da memória à poesia

A ligação de Joaquim com o imóvel, no entanto, vai além do projeto empresarial. Emocionado, ele relembra o último pedido do pai, feito ainda no antigo quarto da casa — justamente onde hoje fica a escada central do salão do restaurante. “Ele estava deitado, já muito debilitado, e me pediu para abrir as janelas grandes do quarto. Queria ver o sol entrando mais uma vez”, conta. Pouco depois, faleceu.

A lembrança deu origem a um poema, escrito por Joaquim em homenagem ao pai:

“Aboiando a família, atravessou as tormentas e por aqui assentou rancho.
Pouco antes de libertar seu espírito, pediu que abrissem as duas bandeiras da porta da varanda do seu quarto.
Por fim, liberto, lá foi ele vaguear, talvez lá pras bandas do Limo Verde, rever o Caparaó, pescar lambari, montar cavalo… Talvez por aqui também, rever a velhinha.
Permanecerão abertas, pai”.

Esse elo entre passado e presente também orientou as escolhas de restauro do imóvel, que manteve elementos originais e ganhou nova vida sem romper com sua história.

Escadaria central


Arte, vinhos e drinques autorais

Além da gastronomia, o Kairū abriga uma parceria com a Galeria OÁ, expondo obras de artistas capixabas e brasileiros. “É um espaço para celebrar o que temos de mais nosso, não só na comida”, diz o empresário.

Na adega, a curadoria da sommelière Nádia Alcalde prioriza rótulos nacionais e de pequenos produtores. São vinhos de vinícolas artesanais, muitas vezes com produções limitadas a menos de mil garrafas. “A ideia é surpreender o cliente com vinhos únicos, que talvez ele nunca tenha provado antes, e valorizar o que é feito com cuidado e identidade no Brasil”, explica. Ao todo, são 80 rótulos, entre nacionais e internacionais.

Já no bar, o comando é de Emanuel Dantas, ex-TanTan (SP), que desenvolve drinques autorais com ingredientes brasileiros, técnicas de fermentação e combinações inusitadas. “Quase um alquimista”, define Joaquim.

Adega e freezer


Cardápio: Brasil com técnica e afeto

No menu assinado por Igor Trarbach, os ingredientes brasileiros ganham protagonismo em receitas criativas. O menu de entradas traz nove criações, e destacamos o gyoza de pato confit com molho de maracujá e priprioca (R$ 65). Já entre os pratos principais, estão o riso al salto de tucupi com leite de coco e velouté de moqueca (R$ 110) e a barriga de porco com purê de maçã queimada, glace de cidra, castanha de baru e bok choy na brasa (R$ 95).

As sobremesas também apostam na brasilidade com sofisticação. São três opções (R$ 45 cada uma):

* Cremoux de chocolate com cumaru, anglaise de sucrilhos, gel de cupuaçu e crocantes;
* Gelato de coco queimado com caramelo de água de coco e mousse de coco fresco;
* Mousse de banana caramelizada com queijo de cabra, crocante de gergelim e gelato de doce de leite com priprioca.

Barriga de porco


Serviço

Restaurante Kairū
Rua Antônio Ataíde, nº 531, Prainha, Vila Velha
Instagram: @kairurest (Reservas pelo aplicativo Get In)
Funcionamento: terça a sábado, das 19 às 23h; domingo, das 12 às 15h30.