Todo dia 13 de julho as redes sociais se enchem de homenagens ao rock. Curiosamente, essa é uma celebração que ganhou força praticamente apenas no Brasil. A data nasceu da repercussão do histórico Live Aid, realizado em 1985, quando surgiu a proposta de que aquele fosse lembrado como o Dia Mundial do Rock. A ideia nunca se tornou uma comemoração oficial em diversos países, mas encontrou terreno fértil por aqui. As rádios brasileiras abraçaram a proposta e transformaram o 13 de julho em uma tradição que atravessa gerações.
Isso talvez diga muito sobre os brasileiros. Gostamos de celebrar aquilo que nos emociona. E poucas manifestações artísticas conseguiram atravessar tantas décadas reunindo pessoas, despertando memórias e conquistando novos fãs quanto o rock. Mesmo com mudanças de comportamento, tecnologia e consumo de música, ele continua encontrando espaço para dialogar com diferentes gerações.
Mas o rock nunca foi apenas entretenimento. Muito antes dos solos de guitarra, dos grandes festivais e dos estádios lotados, ele nasceu como expressão. Suas raízes estão no blues, no gospel e no rhythm and blues produzidos por artistas negros norte-americanos que transformaram dor, resistência, esperança e identidade em música. Desde o início, foi uma maneira de dar voz a quem precisava ser ouvido.
Talvez seja justamente por isso que ele nunca tenha morrido. Quem insiste em decretar o fim do gênero costuma olhar apenas para as paradas de sucesso. Esquece que o rock continua vivo onde sempre esteve mais forte: nos palcos, nos bares, nos festivais, nos estúdios e nas bandas que mantêm esse repertório pulsando durante todo o ano.
O Espírito Santo vive, em 2026, um de seus momentos mais importantes para o rock. O Estado recebeu o histórico show do Guns N’ Roses, em Cariacica, consolidando-se de vez na rota das grandes turnês internacionais. Vila Velha criou o Vila Rock Festival, realizado na Prainha, uma iniciativa da Prefeitura para fortalecer o sentimento de pertencimento da comunidade roqueira capixaba e valorizar uma cultura que há décadas movimenta músicos e fãs.
O festival reuniu nomes consagrados do rock nacional, como Titãs e Ira!, mas também abriu espaço para quem faz a cena acontecer diariamente. Bandas autorais como Intóxicos, Bujiu, Muqueca di Rato e Dead Fish mostraram a força da produção capixaba. Em Vitória, o Vibra Rock, realizado na Praça do Papa, levou ao palco Capital Inicial, Biquini Cavadão e Paulo Ricardo, ex-vocalista da RPM, ampliando ainda mais esse momento vivido pelo gênero no Estado.
As comemorações do Dia Mundial do Rock ainda recebem, em Vitória, a lendária banda escocesa Nazareth. A abertura ficará por conta da histórica Lordose pra Leão, uma das referências do rock capixaba, além da participação da veterana Urublues. É um cenário que demonstra que há espaço tanto para atrações internacionais quanto para artistas que ajudaram a construir a identidade do rock produzido no Espírito Santo.
Esse conjunto de eventos revela que existe público, mercado e paixão pelo rock. Também ajuda a desfazer uma falsa disputa que, de tempos em tempos, reaparece no meio musical: a ideia de que bandas covers e tributos estariam ocupando o espaço das bandas autorais. A realidade mostra justamente o contrário.
A música autoral é indispensável. É dela que surgem novas ideias, novas sonoridades e os artistas que escreverão o futuro do rock. Sem composição própria, nenhum gênero consegue se renovar. Mas reconhecer essa importância não significa diminuir o papel das bandas tributo, que cumprem uma missão igualmente relevante para a preservação dessa cultura.
São elas que mantêm vivo um patrimônio musical capaz de emocionar diferentes gerações. Apresentam Black Sabbath, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen, AC/DC, Iron Maiden e Ozzy Osbourne para jovens que sequer eram nascidos quando esses artistas viveram seu auge. Também movimentam bares, casas de shows e festivais, aproximando públicos e mantendo o rock presente no cotidiano.
No Espírito Santo, grupos como Letal, Dona Fran, Pink Flaming, Aces High, Shot in the Dark, No Class, Fixer e RadioSlave, entre tantas outras bandas, cumprem exatamente esse papel. Não substituem as bandas autorais; complementam a cena. Enquanto umas preservam a memória de um dos movimentos culturais mais importantes da música, outras criam novas histórias. Uma missão fortalece a outra.
Esse modelo, aliás, não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, na Inglaterra e em diversos países da Europa, bandas tributo movimentam uma indústria consolidada, lotam teatros, festivais e casas de espetáculo e são reconhecidas como parte importante da preservação da história do rock. Elas mantêm vivo um repertório que dificilmente poderá ser reproduzido por seus criadores, seja porque muitos encerraram suas carreiras, seja porque simplesmente já não estão mais entre nós.
Talvez seja justamente por isso que o Dia Mundial do Rock faça tanto sentido no Brasil, mesmo sem existir oficialmente no restante do planeta. O que se celebra não é apenas um estilo musical. Celebra-se uma cultura que resiste ao tempo justamente porque nunca deixou de evoluir e de encontrar novas formas de dialogar com o público.
No Espírito Santo, essa força está nos grandes shows internacionais, nas bandas autorais que insistem em criar, nos grupos tributo que preservam a memória do gênero e, principalmente, em um público que continua fazendo do rock uma forma de expressão. Afinal, foi exatamente assim que ele nasceu. Décadas atrás, transformou a dor, a liberdade, a contestação e a identidade em música. Hoje, continua fazendo exatamente isso por meio de novos artistas, novos palcos, novas bandas e novas gerações. É essa capacidade de se reinventar sem abandonar sua essência que explica sua longevidade. Talvez essa seja, afinal, a maior força do rock.