Universo Reciclado celebra 20 anos e questiona o mundo em Vila Velha

Era domingo (6) à tarde em Vila Velha, sol firme mas com o vento cortando, e o Parque da Prainha, considerado marco zero da colonização do Espírito Santo, estava tomado. Gente atravessando de aquaviário pra vir da capital, grupos de dança gravando vídeos, famílias deixando crianças livres no parquinho, até chá revelação rolava por ali. No meio desse cenário, o Movimento Prainha Vive ocupava o espaço com música e arte, reunindo atrações como Rastaclone, Estado de Sítio, Dona Fran, Brisa Doce e o coletivo Plano B, além da feira Maré Criativa espalhada pelas alamedas com expositores locais.

Foi ali, por volta das 14h30, que o Universo Reciclado subiu ao palco para celebrar duas décadas de estrada, oferecendo uma trilha sonora que tomou conta de quem estava ali — fosse pra assistir ao show ou só pra viver o parque como quintal de domingo. O show durou aproximadamente uma hora, tempo suficiente pra espalhar pelo ar o som que misturou comemoração e incômodo.

Anderson Bacana, voz e letras do grupo, dividia o palco apertado com Fabrício Hoffman na guitarra, Uéliton Patrese no baixo, Harrison Borlot na bateria e DJ Sammuca 05, que agora reforça a formação. Mesmo com pouco espaço, Bacana encontrou jeito de dar uns saltos, microfone em punho, lembrando o quanto essa banda segue viva e pulsando. Não foi só um show de aniversário. Foi um lembrete alto e claro sobre o lugar que ocupamos num planeta que dá sinais frequentes de esgotamento.

A música inédita, “Mundão véi”, resumiu bem o espírito do que Bacana sempre quis dizer. O refrão — “ô mundão véi, ô mundão véi, ô mundão” — soou quase como mantra, repetido de forma meio resignada, meio provocadora. Mas o que veio depois foi direto: “queima por aqui, inunda por lá, torra quente aqui, como vai plantar?”, apontando pra um mundo que perde o equilíbrio enquanto o lucro fala mais alto. Quando cantou “o agro é tech, é pop, é tudo dindin, e quem vai semear, pra você e pra mim?”, não precisava ser especialista pra sentir o desconforto. Bastava olhar ao redor, o parque cheio de vida, as crianças correndo, e pensar que o futuro delas passa por esse mesmo solo.

Na sequência, Bacana soltou versos que pareciam cutucar o ritmo frenético dos tempos atuais: “brinca com a sorte, vive sempre o medo, tão ignorante, Elon Musk de arremedo, sair do zero a 100, sem hora pra voltar”. E no fim deixou escapar quase um convite, quase uma instrução: “sair do zero a zero, a solução é reciclar”. Reciclar o lixo, mas também as próprias certezas, as formas de se relacionar, o jeito de olhar pro outro e pro ambiente.

Entre uma música e outra, o Universo Reciclado fez questão de revisitar as canções que construíram sua trajetória, como “Animal de vazadouro”, “Sintonia” e “O certo”. Também entregou releituras que ajudaram a moldar o som da banda — Ramones, Eurythmics, Faith No More — tudo misturado a uma longa lista de referências que Bacana carrega sem cerimônia: Rage Against the Machine, Gilberto Gil, Racionais MC’s, Cartola, Cypress Hill, DJ Hum, Zeca Pagodinho, Planet Hemp, Dead Fish e tantos outros que apontam para um mesmo lugar — a necessidade de questionar estruturas, de chamar atenção para o que costuma passar batido.

No fim do show, o parque foi voltando ao seu ritmo: grupos gravando vídeos, pais empurrando balanços, casais estendidos na grama. Mas ficou no ar a sensação de que, por alguns minutos, aquele palco havia puxado o público para perguntas maiores: quem somos, o que deixamos pra trás, qual é o custo de manter tudo como está. Talvez seja exatamente isso que faça valer manter uma banda por 20 anos — a possibilidade de seguir provocando reflexões incômodas, enquanto o mundo gira, mesmo capengando.

E não deve parar por aí. O grupo entra em estúdio já no final de julho, planejando lançar o novo EP ainda este ano, com “Mundão véi” e outras faixas que nasceram nesse momento em que a banda reencontrou fôlego coletivo. Tudo indica que Bacana e companhia vão continuar cutucando o que muita gente prefere fingir que não existe.