Uma pesquisa qualitativa realizada com professores, coordenação de curso e estudantes da faculdade Novo Milênio, Vila Velha (ES), investigou os riscos da privacidade e exposição digital. O estudo revelou que a falta de preparo das instituições de ensino e a pressão social por visibilidade tornam a privacidade digital um dos maiores dilemas enfrentados por crianças, adolescentes e universitários na atualidade.
Foram realizadas entrevistas presenciais e online nos dias 19 e 22 de setembro com seis alunos da área de Pedagogia, Direito e Psicologia, além de dois professores da área de comunicação e o coordenador do curso de Publicidade e Propaganda. O levantamento buscou entender como os diferentes participantes percebem a relação entre privacidade, exposição e cultura digital.
Os professores percebem mudanças significativas no ambiente acadêmico a partir do crescimento dos casos de exposição indevida. O professor Luiz Eduardo Neves, jornalista, publicitário e docente do curso de Comunicação, explicou que a rotina em sala de aula já não é a mesma. “A frequência de vazamentos e boatos alterou a forma como nos relacionamos em sala. É preciso equilibrar produção de conteúdo com cuidado e bem-estar dos alunos”, ressaltou.
Ele acrescentou que a pressão por presença nas redes sociais, muitas vezes incentivada por atividades acadêmicas e exigências profissionais, acaba fragilizando a proteção da privacidade. “Vivemos um paradoxo: queremos que os alunos sejam produtores de conteúdo e dominem as ferramentas digitais, mas precisamos ao mesmo tempo ensiná-los a estabelecer limites e a preservar a própria imagem”, destacou Luiz.
A professora de Jornalismo e Comunicação, Cláudia Borba, também reforçou o papel ético que a academia e a mídia devem exercer. Para ela, é essencial que a universidade prepare os futuros profissionais para lidar com situações sensíveis. “O jornalismo deve evitar identificar vítimas sem autorização e transformar a cobertura em serviço educativo, e não em espetáculo. É nesse ponto que a formação ética dos estudantes se torna decisiva”, pontuou.
O coordenador do curso de Comunicação – Publicidade e Propaganda da Faculdade Novo Milênio, Gustavo Tostes Belo, reforçou que o problema não se limita ao ambiente escolar, mas afeta a sociedade como um todo. “A superexposição prejudica a identidade e a autoestima. Precisamos de políticas institucionais claras e de mais debates públicos sobre o tema”, afirmou.
José Azueira Friques, de 30 anos, e Kayque Santos, de 22, ambos do sétimo período de Direito, destacam que, apesar da existência de legislações como a Lei Carolina Dieckmann e a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), a aplicação prática é lenta e muitas vezes ineficaz para conter a viralização instantânea de conteúdos íntimos ou pessoais. Segundo eles, a falta de mecanismos ágeis de rastreabilidade e remoção de postagens deixa vítimas desamparadas e expostas, reforçando a necessidade urgente de novas normas específicas para o ambiente digital. “A responsabilidade é de quem compartilha, mas a legislação ainda é insuficiente diante da rapidez com que tudo se espalha”, afirmou José.
Júlia Ruy Castro Brito, de 20 anos, 4° período, e Julia Batista, 22 anos, 2° período, ambas alunas de Pedagogia, destacaram que as instituições de ensino não estão preparadas para enfrentar os desafios da privacidade digital. Para elas, a maioria das faculdades ainda enxerga a tecnologia apenas como ferramenta de apoio pedagógico, sem considerar os riscos que acompanham seu uso cotidiano. “As faculdades ainda não oferecem orientações claras sobre como proteger a imagem e os dados dos alunos. É urgente alfabetizar digitalmente desde cedo”, defendeu Julia Batista.
A colega de curso, Júlia Ruy Castro, reforçou que a questão vai além do domínio técnico. “Não basta ensinar a usar aplicativos e plataformas. É preciso trabalhar ética, cidadania digital e responsabilidade no ambiente virtual”, afirmou. Ambas ressaltaram que a formação docente precisa ser revista, incluindo não só práticas para integrar a tecnologia às aulas, mas também diretrizes para orientar os alunos a se protegerem em um cenário de superexposição cada vez mais naturalizado.
Os alunos de Psicologia, Joaquim Mendes, de 20 anos, do 4° período, e Rebeca Souza, com 24 anos, do 9º período, destacaram que a reparação emocional após uma exposição digital é longa e delicada, exigindo acompanhamento terapêutico e apoio institucional. Segundo eles, a reconstrução da identidade da vítima envolve restabelecer a autoconfiança e evitar novos gatilhos de revitimização.
Rebeca ressaltou que, além de depressão e ansiedade, surgem impactos menos discutidos, como paranoia, despersonalização, isolamento e dismorfia corporal, que fragilizam ainda mais a autoestima. Os dois apontaram que vazamentos e boatos ampliam o bullying e a exclusão, tornando o processo de cura ainda mais difícil.
Esta matéria é resultado de pesquisa/apuração dos alunos do curso de Publicidade e Propaganda da Faculdade Novo Milênio Eduardo Rabelo, Marcela Reis, Raylane Kendelly e Vivielly Martins. Para acessar a pesquisa completa, clique AQUI.