Há bandas que atravessam décadas como parte da história da música. Outras conseguem transformar essa história em uma experiência compartilhada por diferentes gerações. O Iron Maiden pertence às duas categorias. No domingo (25), diante de cerca de 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo, o grupo britânico iniciou a etapa brasileira da turnê Run For Your Lives, que celebra seus 50 anos de trajetória. Com ingressos esgotados, o espetáculo mostrou que a banda continua mobilizando multidões sem depender das tendências que dominam o mercado musical.
Assisti à apresentação e pude acompanhar de perto a dimensão desse encontro. Fui com uma caravana de fãs do Espírito Santo, formada por pessoas de idades variadas e unidas pelo mesmo repertório. A viagem já oferecia um retrato do que o Iron Maiden representa: o rock continua vivo, circula entre gerações e mantém sua capacidade de reunir pessoas, mesmo quando ocupa menos espaço nas grandes mídias.
A organização cumpriu os horários previstos. Os portões abriram às 16h, o Alter Bridge começou às 19h10 e o Iron Maiden entrou no palco às 20h50. A chuva apareceu apenas rapidamente durante a espera na fila, antes da abertura dos portões. Na pista, a atmosfera era de euforia, com bandeiras, camisetas e referências a Eddie, mascote da banda. Um fã caracterizado como a versão militar do personagem circulava entre o público e posava para fotografias.
A turnê percorre os nove primeiros álbuns de estúdio do grupo, de Iron Maiden (1980) a Fear of the Dark (1992). O repertório privilegia um período decisivo para a consolidação da banda, marcado por composições extensas, solos de guitarra e letras inspiradas em episódios históricos, literatura e fantasia.
O show começou com a introdução instrumental “The Ides of March”, seguida por “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild” e “Killers”. Nesta última, Eddie apareceu pela primeira vez. A produção audiovisual teve papel central durante a apresentação, com cortinas de teatro, ruas, navios e cenários que se integravam à atuação dos músicos, especialmente à do vocalista Bruce Dickinson. Em “Iron Maiden”, o mascote parecia sair da tela, criando a impressão de que atravessava a fronteira entre a projeção e o palco.
Dickinson também mostrou que a relação com o público brasileiro continua sendo um dos pontos fortes do grupo. Ao conversar com a plateia, afirmou que o Brasil ocupa um lugar especial em seu coração. A resposta veio em gritos e aplausos. Em diferentes momentos, o vocalista convocou os fãs com o tradicional “Scream for me, Brazil!”, recebendo de volta um coro que tomou conta do estádio.
Antes de “Rime of the Ancient Mariner”, composição inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, Dickinson pegou um cantil e anunciou: “It’s cachaça time”. Depois de beber água, brincou que quem consumisse cachaça suficiente e olhasse para o céu poderia avistar um albatroz. Nos telões, um fã com uma máscara da ave apareceu, provocando risos e aplausos.
A música ganhou um elemento adicional quando a lua surgiu entre as nuvens, em um céu escuro que parecia combinar com a narrativa do marinheiro. Muitos fãs registraram a coincidência com seus celulares.
Outro momento marcante ocorreu em “The Trooper”. Os guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers foram recebidos com entusiasmo, especialmente quando se alinharam no palco durante os solos. Dickinson agitou uma bandeira do Brasil durante a música, em uma noite que também ficou marcada pelo segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Naquela ocasião, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
O repertório seguiu com clássicos como “Powerslave”, “The Number of the Beast”, “Seventh Son of a Seventh Son” e “Hallowed Be Thy Name”. Às 22h30, a banda deixou o palco brevemente. O retorno veio com o discurso de Winston Churchill, que introduziu “Aces High”. “Fear of the Dark” e “Wasted Years” encerraram a apresentação.
A turnê também marca a estreia do baterista Simon Dawson, que assumiu o posto após a saída de Nicko McBrain, afastado das apresentações por questões de saúde. A mudança representa uma nova etapa para um grupo que passou por transformações ao longo de cinco décadas.
O Iron Maiden não precisa provar que continua relevante tentando parecer jovem. Sua força está em preservar uma identidade musical reconhecível e apresentá-la com a disposição de quem ainda tem algo a oferecer. Mesmo que o andamento de algumas músicas seja diferente daquele registrado nos discos antigos, isso não apaga a potência das composições nem o impacto dos arranjos.
A imagem de uma banda que envelhece como um bom vinho pode parecer previsível, mas encontra fundamento no que se viu em São Paulo. O Iron Maiden segue apoiado em um repertório que atravessou mudanças de comportamento, formatos de consumo e transformações na indústria fonográfica. Suas canções continuam sendo cantadas por quem acompanhou o grupo desde os primeiros discos e por pessoas que nasceram muito depois de seu lançamento.
A caravana capixaba da qual participei reunia diferentes idades e histórias pessoais, mas todos compartilhavam as mesmas referências musicais. O rock pode perder espaço nas grandes mídias, mas continua presente nos shows, nas viagens e na transmissão de referências entre pais, filhos e amigos.
A apresentação de 25 de outubro foi mais do que uma celebração de aniversário. Mostrou que o legado do Iron Maiden não está restrito à memória de quem acompanhou sua ascensão. Ele continua sendo renovado a cada geração que descobre essas músicas e decide cantá-las diante de um palco.
A turnê Run For Your Lives tem nova apresentação prevista para esta terça-feira (27), no Nubank Parque, em São Paulo, antes de seguir para a Arena da Baixada, em Curitiba, na quarta-feira (28). Para quem esteve no primeiro show, fica a lembrança de uma noite em que a história do heavy metal não foi apresentada como peça de museu, mas como música viva, compartilhada por milhares de pessoas.
